segunda-feira, 22 de abril de 2013

Suave queda




Da minha janela vejo
duas pipas se saracoteando

De repente, uma abateu a outra
que foi caindo lentamente

Cena tão triste...

Nem as pipas vivem em paz
mesmo sendo imenso o céu





quinta-feira, 11 de abril de 2013



Diadorim
neblina nos olhos que denuncia
todo amor tem um fim


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Espanto




     
                  Sobra encanto
                          pra todo encontro.



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Nosso carnaval




Do escuro da casa de dança, sua voz calma, como se fosse luz, brilhou tanto que ofuscou a multidão e congelou o tempo. Arteiro, certeiro, suas palavras sempre exatas e sua mão,  quando dada à minha, parecem interromper o movimento do meu caminho corda bamba, melhorando minha passada, minha viagem, apaziguando parte da minh’alma que anda penada, mas atordoando o meu peito que de novo bate, urgentemente, no compasso desse nosso carnaval.



Enluarar




De uma pequena brecha na janela
a lua exibida se lançou na minha noite 
me fazendo levantar.

Se fosse cheia, num sei não, 

era capaz de em disparada
eu ir daqui até além mar.


Coração Míope



A vista é de 360 graus. Dá pra ver o Mineirão, a Cidade Administrativa, as favelas, a Serra do Curral, o relógio do Itaú no centro da cidade, as cuvas indo e vindo, todos os raios que caem e partem, o Independência - a Nina chama o estádio de "Galo" e dá boa noite para ele todos os dias - e os fogos quando o Atlético entra em campo. Dá pra ver  dias lindos de sol também, o tempo passar, estrelas, muitas luzes, os semáforos das avenidas mudando de cor, a Santa Casa, as lajes com piscinas, algumas de plástico, outras não. Dá pra ver - e principalmente ouvir - o pagode no barraco, o aeroporto da Pampulha, o sobe e desce de aviões em Confins. Dá pra ver muitas coisas, mas não tudo. Nem daqui do alto, nem lá do chão, nem de nenhum outro lugar.


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Desamor desumanizado



o amor, seja como for, entra
mas para sair, camarada,
só mesmo a fórceps.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fragmentos de susto

I

A vida é tão frágil
Que devíamos carregá-la
Como se fosse relíquia
Porque é.

II

Na sala de espera, com toda aquela vestimenta - e medo -
me olhava aflita a senhora
Puxei papo, Vai fazer de que?
De coluna - respondeu -, e você?
Cabeça.
...

Minuto de silêncio de quem não pode dizer
"ainda bem que sempre tem alguém pior que a gente."

III

Poucos minutos  antes da entrada pro Bloco, mantendo os olhos lá fora.
Ele tinha ido buscar uns exames.
Curiosa, a senhora me perguntou, O que você tanto procura?
Estou esperando meu marido, quero me despedir antes de me chamarem.
Quase sem me deixar terminar, gritou, Não se despeça, não!!
Tudo bem então, estou esperando meu beijo de boa sorte, concordei.

 Na vida se aprende em todo e qualquer lugar.

IV

Minha filha em momento nenhum
deixou de saber que eu era a sua mãe
Mesmo com o rosto deformado
Mesmo com curativos e equimoses
Mesmo tendo ela apenas 10 meses de vida

A ela, devo a minha sanidade - ainda que seja
considerada pouca para alguns.






domingo, 23 de outubro de 2011

Obrigada, chuva
Amaciou minha terra
Trazendo de volta a esperança
que há tempos a estiagem secou.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Sorria, você está sendo filmada



Você que tem essa curiosidade, que não chega a ser estranha, sobre as linhas que descendem da minha vida, linhas que registro porque quero sempre mais de tudo, do que posso ter e do que não posso, porque não caibo em mim, então preciso de qualquer coisa mais para me conter no tanto que minhas pernas não alcançam, seja bem vinda!

Quero te dizer que se procura por vírgulas fora do lugar, quem sabe para um conforto de se saber (achar!) um tanto mais letrada, ou eu um tanto mais piegas, tem perdido o seu tempo, porque na obscuridade das suas intenções, acho dificil você compartilhar a sua obsessão para, ao menos, alguém, além de você mesmo, concordar com as suas comparações.

A não estranheza se dá porque pessoas como você são figurinhas tão fáceis de se identificar, dessas que, uma pena, não têm silicone para inflar o caráter, para ver se rola um upgrade, ajudando assim a, quem sabe, coitada, ter uma vida própria, ou preencher, com alguma coisa mais, a que, vazia, leva, fingindo que é feliz, como os filtros do instagram fazem por fotos mediocres.

Se busca um desabafo triste para planar feito um catartídeo sobre o que já desceu as corredeiras de um rio e deságuou no meu mar, sinto muito; a face revolta, agitada, turva e amplitude das minhas marés, essas, você não terá o prazer de ver.

Venha, toda vez que quiser se remoer, não com a minha existência, mas com a sua total incapacidade de ser honesta até consigo mesmo e, quem sabe, a minha entrega à pieguice pode te motivar de alguma forma a descascar essa cera acumulada de anos de tentativa de dar um brilho a mais, mas tudo o que tem feito é te deixar mais opaca, apagadinha, procurando nas linhas desse humilde e despretencioso blog alguma coisa que nem você sabe o que é, para se sentir melhor. Que eu, talvez? Liberte-se.

Sorria. Você que gosta tanto de aparecer, apareceu!


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Todos os amanhãs possíveis

Você é tão pequena, mas já é uma pessoinha. É incrível. Tem trejeitos, espreguiça no berço resmungando de sono. Fica feliz quando faço o que você quer, reclama se não. Até força o choro para fazer um drama. Deu para ficar de pé, tentando se segurar a tudo, ainda que meio rebolando para se equilibrar naquelas pernas coxudinhas, que eu quero morder e mordo todos os dias, sempre que posso. Você tem uma mania de dar um tapinha nas minhas costas quando te pego no colo que é muito bonito, porque eu tenho certeza que você está fazendo carinho. Como quando você arranca meus cabelos ou quase leva um pedaço da minha boca quando sou agarrada pelas suas mãozinhas, pequenas e pesadas para um ser de apenas um punhado de meses de vida. Depois de descobrir as mãos, descobriu o dedo indicador e adora levá-lo às pequenas coisas, bem miúdas mesmo, dignas de ser apontadas por você. A primeira vez que vi, você estava sentindo a textura de uma formiga morta. Vi antes de você comê-la. Sei que não terei essa sorte todas as vezes que essa curiosidade que pulsa, dentro do seu corpinho de coração rápido feito beija-flor, sair pelos seus olhos de jabuticabas. Até os cílios compridos parecem ter sido feitos para você enxergar muito mais as coisas que fazem você comemorar com as pernas. Cheias de dobrinhas. Nem tem dentes mas já mastiga pão, biscoito, pedaços no meio da papinha e faz cara de orgulhosa por tamanha independência. Morde meu queixo com sua banguela e manda beijos, estalos, soprinhos, cuspidas, larilarilari, nenenenen, mamamã. Posso te levar em qualquer lugar que ficamos bem, eu e você, companheiras que já somos. Sua simpatia conquista todo mundo que chega e que passa e aí eu que fico orgulhosa. Não existe tempo ruim com você. Acordar e ver sua carinha é a dose de leveza diária na minha vida, que chega a ser terapêutica. Adora quando eu mexo na sua orelha, chega a virar olho e recentemente descobri que derrete quando passo os dedos em você bem de levinho, o que eu também adoro! Você não gosta de ficar no colo porque gosta de explorar as coisas e ter os braços livres para bater palminhas, sacudir-se, tentar pegar o que não pode e colocar na boca. Exceto quando está fazendo charme, ou querendo um chamego - e lá vem os tapinhas. Mas de tão bom que é ser sua mãe, hoje quebrei a rotina e te ninei até você adormecer profundamente no meu colo. Dei beijinhos, fiz carinhos, senti o seu cheiro de filhotinho de beija-flor com jabuticaba com porquinho com pacotinha. E depois de te abraçar com todo o amor que em mim transborda e colocá-la no berço, estou aqui escrevendo feito uma mãe coruja, saboreando essas pequenas e doces lembranças para o meu sono também chegar. Que venham muitos amanhãs, pessoinha linda.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

PASSOS QUE NÃO SE PERDEM NA MEMÓRIA



Nunca tive medo de trabalho. Lembro que meu primeiro dinheiro foi vendendo Avon, ainda quando eu tinha lá meus 13 anos. Quando juntei um pouco, fui na Vide Bula e comprei uma calça jeans que eu paquerava há tempos. A sensação foi maravilhosa. Entrar naquela loja e comprar aquela calça. Com o meu dinheiro. Fiquei viciada. Ajudava minha mãe, ora cuidando da casa e dos meus irmãos – e agora tento resgatar do fundo do baú todos os meus aprendizados domésticos –, ora ajudando a vender os seus quitutes. Até que consegui o meu primeiro emprego. Carteira assinada, salário de 106 reais. Era o mínimo da época. Foi meu pai quem me arrumou.
Não durou muito. Na primeira crise do seu estabelecimento, eu fui parte do corte de despesas. Não desanimei. Logo fui trabalhar no Ponteio Lar Shopping como auditora. Seis horas de pé, vigiando as vendas das lojas. Situaçãozinha desagradável; se aumenta as vendas, a loja tem o seu aluguel reajustado. Capitalismo é isso. Pelo menos, eu ganhava ticket alimentação e vale-transporte. Menos mal. Aí veio meu primeiro emprego de verdade. Um amigo me indicou. Era na Caixa Econômica Federal. Uau, um banco. Salário três vezes maior, mais benefícios. E eu com 16 anos! Nada mal, de verdade. Comprei um pacote e fui pro show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro. Sozinha. Rá! Minhas asas não estavam se contendo. Cada dia que passava queriam aparecer mais um pouquinho. Daí, foram dois anos de muito aprendizado e ralação. Sempre estudando. Até que passei no tal do vestibular. Direito e biologia. Ainda bem e, graças a todos os espíritos bons - anjos, astros, orixás etc - escolhi biologia. Gastava meu salário todo pagando o curso. Minto: sobravam 13 reais. Mas eu ainda contava com uma grana de pensão alimentícia do meu pai.
Então, fui na PUC, deixei meu currículo e consegui um emprego na universidade. E junto com o emprego uma bolsa de 100% - eu disse cem por cento!!! - para estudar biologia. E me formar. Fiquei simplesmente rica porque passei a ter um salário ok, recebia minha pequena pensão e ainda não tinha que pagar faculdade!
Foi aí que comprei uma barraca e um mochilão. Comecei a desbravar terras mais distantes. E consegui comprar meu primeiro carro. Um Kadett na cor chumbo, uma potência de motor. Tão potente que bebia que era uma beleza. Vivia acabando a gasolina e eu indo correndo – literalmente – no posto encher aquele saquinho que já morava no porta-malas. Esse carrinho foi parar lá na Bahia. Boipeba, Itacaré, Barra Grande, Ilhéus. O trabalho era pesado, porque a biologia era no período da tarde. Então, para conseguir cumprir as 44 horas semanais de dedicação, eu ia de manhã e à noite, além de aos sábados, duas vezes por mês. Tudo bem. Eu ainda tinha idade, ânimo e sede de viver tudo. Então, ainda dava tempo para namorar, beber depois da aula e do trabalho com a turma de bio... Até que foi se aproximando a minha formatura. O que eu faria da vida? Como bióloga era uma excelente auxiliar administrativa. Trabalhei durante todo o meu curso. Não fiz estágios em laboratórios, não me envolvi em grandes pesquisas.
Resolvi ser professora, mas eu queria morar no Rio de Janeiro. Fixação antiga, sabe? Comecei a olhar todos os concursos no estado do Rio e ampliei a busca para empresas com sede na cidade maravilhosa. Uma delas era a Vale. Onde estou até hoje. Com um pequeno, mas distante detalhe: fui mandada para São Luís do Maranhão. Nú! Pelo menos deu para conhecer os Lençóis Maranhenses, Alcântara, Fortaleza e Jeri no Ceará. Fui várias vezes “a trabalho” para o Rio, onde também estava um grande amor. Voltei à Bahia, não mais de Kadett ou de busão, mas de avião, tá? Para passear e rever velhos amigos. Fui parar na Austrália, África, Argentina, França, Holanda, Noronha e outras terrinhas brasileiras. A barraca passou a ser menos usada, entraram os hotéis de luxo pelo trabalho e pousadinhas nas férias. Daí, veio a primeira casa alugada, o primeiro apartamento comprado, o sonho da casa com um verde ao redor se concretizando. Veio uma filha maravilhosa, com saúde e uma infraestrutura e conforto de dar gosto. Acho que Nina não terá problemas em entender o valor das coisas e como ela é privilegiada. O apartamento virou um lote que vai virar uma casa. E Nina, em breve, engatinhará nas areias de Noronha. Fina, não é? E o vício não pára. Trabalhar e conquistar. De busão para avião, de barraca para hotel de luxo, da casa simples com minha mãe para minha casa linda no mato. De sozinha para família. De Guarapari para Paris. Guaraparis, hehehe. Mas de todas essas conquistas materiais, as maiores foram os aprendizados nessa jornada. As muitas vezes em que senti cansaço e desânimo e que sempre tinha alguém para me ajudar. Minha mãe, muitos amigos queridos, parentes e até vizinhos. Gente simples e gente chique. Quer saber? Ser chique, chique mesmo, é ser simples. É saber apreciar a vida da forma que ela se apresenta para você. De busão ou de avião. De Foie Gras ou de ovo frito em cima do arroz. Chique é ter humildade. A Nina vai saber disso. Vai ver beleza naquilo que não é óbvio. Que está nas sutilezas. Que está naquilo que não podemos comprar. Enquanto Nina não cresce e começa a se preocupar com essas coisas, deixa eu voltar aqui pro trabalho para pagar mais uma continhas – com muito orgulho! – para programar mais umas viagens e mais coisas para conquistar nessa vida que é um cisquinho. Eu sempre brinco que maldita da mulher que queimou o soutien, mas acho que se eu vivesse no tempo em que as mulheres ficavam em casa costurando, cozinhando, cuidando da casa, no mínimo, eu seria do sindicato das costureiras ou da cooperativa das donas de casa, qualquer coisa assim. Porque o poder não tem preço. O poder de dar o rumo da sua própria vida com seu próprio trabalho. Puxa, vida, que pena que hoje não é primeiro de maio!

Ciúme de você

As bochechas um pouco caídas, tal como um bulldog francês, e o olhar parado, denunciam a sua, rara, condição de seriedade. E a boca, desenhada a 0.5, com aquele detalhe no meio, fica um pouco aberta, o que faz, de vez em sempre, escorrer uma babinha. O interessante é que em vez de causar nojo, só o que faz é, automaticamente, gerar um ato de cuidado, de pegar um dos tantos paninhos que fazem parte dos apetrechos e limpar.
Uma careta, uma gracinha, esboça um sorriso e volta a ficar com a expressão séria. Será que é sono? Pode ser fome. Não, mamou há apenas duas horas. Está limpinha, então o que pode ser? Nada não. Só porque parece uma mala velha, sorrindo praticamente todos os segundos desde que acorda até dormir – e até dormindo, também sorri – não significa que as bochechas caídas são motivo de preocupação.
Até que, de repente, no meio daquela gente toda da festa junina da escolinha, ele chega. Entoa o seu grave chamamento e dois olhinhos jabuticábicos de cílios de boneca brilham. A bochecha é suspensa por um sorrisão banguelo, as pernas balançam e toda aquela seriedade, incomum, desaparece.
É... As meninas gostam mesmo dos seus papaizinhos.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Quase sem palavras

E lá estava parada com a mãozinha esticada, apontando para o alto, em frente a arvore. Não falava a boca e sim os olhos que miravam fixamente o pé de araçá. Perguntei o que queria. Insistiu em apontar pro alto. Dei a volta na sacada, fui até ela e me agachei para olhar também, tentando, em vão, me nivelar a ela para decifrar o mistério. Era um cacho cheio de frutos. Eu disse, Ah, a frutinha, mas está muito alto, querida... Imediatamente respondeu, Vovô!

Claro. Como eu podia ser boba assim. Quase sem palavras disse o que queria e a solução que precisava. Sábia, Olivia. Não tem nem dois anos e já economiza mal entendidos...

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O meu caos

Esquento o leite para aquecer o corpo. Olho ao redor, uma bagunça. Coisas de neném com coisas de moto, contas com controles-remotos, chaves com resto de cebola cortada, roupas no chão com toalha molhada, sapato virado com cama desarrumada, remédio aberto, carrinho no meio do caminho, torneira pingando, moringa vazia, detergente acabando, fim do mês chegando, o sono me abraçando. Deito agora com a certeza de que sou muito feliz.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Muitos anos de vida







Quanto mais velho, mais bonito.
Contudo, para isso,
mesmo que vez ou outra
sejam necessárias podas e torções,
sua vida deve se resumir
a muitos cuidados e amor.


Imagem: Bonsai de Pitangueira -16 anos.



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Primeira exposição



Entre aquarelas, poesias, filosofia
olhos, jabuticabas, estatelados sorriam
para cores e signos,
enquanto meus braços num abraço
onde não cabe tamanho amor


quarta-feira, 27 de abril de 2011

A descoberta

Meados de abril e eu com aqueles conhecidos sintomas pré-mestruais. Os seios inchados e doloridos, certa impaciência e um calendário que apontava para a solução disso; assim que ela descer, viro gente de novo, pensava. Estava no Rio de Janeiro, tinha acabado de alugar um apartamento no ponto mais nobre de Ipanema – na Rua Nascimento Silva, entre Joana Angélica e Maria Quitéria. A tão sonhada mudança para a cidade maravilhosa, a carreira internacional, as viagens, as milhas, os cartões fidelidade, o networking, a vida perto do mar, o glamour de uma capital culturalmente mais efervescente do que a provinciana Beagá, tudo o que eu achava que era importante na minha vida, de repente, foi colocado à prova.


Na semana da descoberta, antes mesmo de me mudar para o apartamento, fui fazer uma coisa rara – visto que eu estava morando num aparthotel –, algo para comer, e ao quebrar o ovo tive a surpresa de encontrar duas gemas. Achei engraçado e na solidão de uma quase-mudança de cidade, compartilhei com meus amigos no facebook o acontecido. Dentre todos os tipos de respostas, uma assim: pode ser um sinal…


Sinal de quê?


Coincidências à parte, acordei no meio da madrugada seguinte com a mão na barriga. Para livrar-me de uma ansiedade desnecessária, comprei logo um teste de farmácia e fiz no primeiro xixi da manhã. Era só para chegar em Beagá no dia seguinte tranquila, caso me perguntassem eu diria, tá tudo certo, fiz o teste ontem. Já havia feito desse teste antes, mas nunca recebi o produto das mãos de uma atendente que sorrisse tanto para mim. Muito esquisito.


Duas listras quer dizer grávida, uma listra quer dizer não grávida, mas aqui tem duas listras, duas listras quer dizer grávida, uma listra não grávida, mas aqui tem duas, não tem uma só, devia ter, mas não tem! Coloquei o teste lado a lado com as instruções e estava lá, meu teste, igualzinho o positivo da bula. Eu tremia, chorava, ria, sentia medo, negação, olhava a barriga no espelho, tudo ao mesmo tempo. Já sofria só de pensar em como daria a notícia, no que eu faria se fosse sozinha, no que eu faria se fosse junto, no que eu não faria, enquanto, descabelada, dentro de um táxi, ia para um laboratório fazer um exame de sangue. Mais uma pessoa que me atendeu demasiadamente sorridente e o sorriso se alargou ainda mais quando contei o ocorrido. Para me "tranquilizar” disse, minha filha, se deu positivo o de farmácia, você está mais que grávida, seus hormônios já estão lá nas alturas!


E a essa altura, mal sabia eu que um danado de um flagelinho sapeca era o ator principal da maior descoberta da minha vida até então: que eu não fazia a menor idéia do que é importante na vida. E o mais incrível, a noção nem chega assim…vem vindo em doses homeopáticas a cada mudança desencadeada pela fusão de amor que me salvou e que vai salvar esse mundão doente que a gente deixou de herança para os nossos pequeninos e pequeNinas.



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Novo parto




É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, tanta coisa circulando em tantos canais virtuais e presenciais - cada vez mais virtuais, fato - que, por várias vezes, quis parar para escrever, mas desisti. Coisas bacanas sobre a minha gestação, da emoção do parto já com as primeiras quebras de conceitos e, depois, sobre a existência de um serzinho, que nasceu tão cheio de possibilidades e que vai se revelando, dia-a-dia.


Aí dá vontade escrever sempre. Quando vejo uma carinha diferente, quando vejo os primeiros tudo, o sorriso, aquele olhar, quando ela passa a reconhecer os mais próximos, a cara quando o pai chega do trabalhor barbarizando, quando começa a se comunicar, a balbuciar, formar as primeiras silabas, se divertir comigo, com aquilo, consigo mesmo. Tudo o que acontece dá vontade de contar.


Dá vontade de escrever sobre a explosão de amor e do pânico da finitude que, de repente, invadiu minha alma e tomou conta de todas as noites e todos os sonhos, porque o sono, já era. Clichê, verdade. Sono alerta e sonhos trazem à tona os medos que me cercam o dia inteiro pelo peso - tão leve! - da responsabilidade de cuidar desse serzinho, sorridentemente banguelo e desarmador, desacelerador, desmascarador. De tanta vontade de escrever sobre tanta coisa, foi ficando cada vez mais difícil e a sobrecarga de informações por aí me faz pensar, para quê? Tanta gente já escreveu sobre isso. Tanta gente escreve. É tanta coisa. Tanto item.


Mentira. É que a intensidade dos acontecimentos e a felicidade de ter a oportunidade de viver cada dia dessa vida singular com a pessoinha que está dormindo no quarto ao lado - uma coisa linda, no bercinho, luz apagada, até amanhã de manhã - e que, mesmo chorando de fome, abre um sorriso enorme - e ainda banguelo! - quando colocamos nossa cara na frente dela, claro, para depois voltar a chorar, tem sido muito maior que qualquer vontade de me expressar, ou me relacionar com o mundo, seja como for.


Para parar e escrever era preciso entender como estou agora que as coisas estão bem diferentes dentro de mim, como rever se importa para mim se vou conseguir um texto legal ou mais ou menos, se meu cabelo está bonito grande ou fica melhor curto, se minha pele melhorou ou se está demorando muito, se prefiro ser executiva de multinacional ou dona de casa, se sou mais ou menos bonita que x ou y, se tenho 300 amigos no facebook ou dois que fazem tudo por mim na minha vida real, se estou muito magra ou se devo ir correndo para academia, para depois postar minha foto de frente pro espelho e de costas para a única verdade que existe. No fim das contas, o destino de todo mundo é o mesmo; o fim.


E até hoje não tinha me dado vontade de escrever, até eu ter vontade de escrever o que já foi escrito muitas vezes. O tempo é curto, voa, a vida e uma só, e a gente pode escolher viver de aparências, de se gabar de ter coisas bonitas e caras, de conhecer lugares exóticos, de viver usando máscaras, se achando mais bonito ou mais legal ou mais descolado que o outro, ou pode escolher outra coisa. Tipo dizer sim, primeiro. E ser gentil, primeiro. Fazer companhia ao outro, dar o lugar, passar a vez, chegar em segundo, o que que tem? Pedir desculpas, pedir a mão, estender a mão, abrir mão. Mudar de idéia, pensar bem, voltar atrás. Relevar e perdoar. E escrever para os que vão ficar mais um tempo depois da gente, menos sobre a gente e mais sobre coisas alegres. Mesmo que sejam escritas porque estamos tristes naquele dia. Geralmente é assim, porque a felicidade é tão sublime e o tempo a engole tão rapidamente, que é melhor não perder tempo escrevendo. Melhor é degustá-la, feito comidinha de mãe... É isso. Não escrevi até então, porque hoje sou mãe.







sábado, 26 de março de 2011

Voltando aos poucos





Eu queria que a vida fosse uma eterna licença maternidade.



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A Nina vai nascer



Aproxima-se o Natal. Foram poucas as oportunidades em que me imbuí desse clima espiritual que contamina quase todos os povos, especialmente aos Cristãos.


Afirmam alguns ser tempo de mudanças e de transformação. Tempo de renovação das esperanças, tempo de se doar, tempo de perdoar, tempo de confraternizar...


Que seja tudo isso, pois, afinal, são as aspirações de toda a humanidade!


Neste Natal, porém, aqueles sentimentos tão distantes de minhas recordações, parecem que se afloram novamente. O coração bate esperançoso e a mente pressente transformações, as mais auspiciosas, para um futuro recente. O sentimento de solidariedade se avoluma, transformo-o em realidade, sinto me feliz por isso. Já não tenho a quem perdoar, pois também esqueci todas as mágoas do passado.


A renovação da vida, enfim, torna-se realidade e agradeço.


Se tudo isso já não bastasse, tem o presente que vou receber, que belo presente! Trata-se da Nina, a filha da Flavinha que está para nascer.Ela traz em sua preciosa bagagem a harmonia da união entre seus próprios pais – e como dá gosto ver isso -, de sua legítima avó, Miriam, com o Vagner – avô emprestado – e de todos os entes queridos dessa família.


Parabéns e obrigado, Nina. Você é símbolo dessa maravilhosa transformação! Você é a nova luz, com matizes dos mais variados, que iluminará nossas vidas – de todos -, de hoje em diante!

Um beijo pra você, sua mãe e um forte abraço para seu pai, Bruno.


Gnerva Tulivar – 21 de dezembro de 2010.



Obs: presente que a mamãe ganhou de natal do seu vovô, pequeNina. Nada emprestado, muito amado, você vai ver...


Imagem: foto de Vartuli



quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Da vaidade


É impressionante o que um ser humano é capaz de fazer, quando do alto do seu EGOísmo e EGOcentrismo não admite que, em algum momento da sua vida, não terá o que quer, quando quer. E isso se agrava quando, muito provavelmente, nem queira verdadeiramente, mas o fato de ter algum impedimento, torna o esse querer incontrolável.


O querido passa então a ser encarado como um desafio, uma meta a ser atingida, um alvo a ser acertado, porque se não, as taxas hormonais podem se descontrolar de tal maneira, capazes de causar uma tristeza e uma depressão – bem como os que experimentam abstinência de um composto químico qualquer – que só seria aliviada com o domínio do objeto desse querer, desmesurado e vil. Querer esse que é confundido com alguma coisa próxima de sentimento bom, ou mais, com amor. Mas, por favor, tenhamos aqui respeito a esse nobre sentimento, amor, pois esse, nada tem a ver com intolerância à perda, ou ao controle ou à mera vaidade.


Falando em seres humanos, Guimarães Rosa já havia recomendado certos cuidados ao se visitar um zoológico, como, por exemplo, nunca, nunca mesmo, dar espelho aos macacos. Eis que se apresenta um grave problema na humanidade, porque nas grandes cidades, especialmente nas muito grandes, quase tudo é espelhado, muito espelhado. Daí, já viu, vale tudo para se transformar numa imagem mais bonita, mesmo quando no fundo, não se é.


Vale usar o tempo que passa para esmorecer as más recordações, com a ajuda de uma empostação mais suave na voz.


Vale usar a distância para não deixar em evidência o rastro das mancadas disseminadas a outros quereres que, por estarem perto rapidamente vêem a verdade e vão embora, um a um, e vão mais, cada vez mais.


Vale atribuir ao objeto do querer o motivo da solidão vivida, quando na verdade ela é causada pelo afastamento dos que enxergam além da imagem que tenta ser projetada.


Vale realizar inocentes manifestações de gentileza arquitetadas tão somente para se fazer presente, para que na primeira oportunidade de fraqueza, esteja ali, à disposição, bastando apenas uma mensagem instantânea, uma letra, um NADA, para tão prontamente mostrar que está a postos, num gesto que soa tão bonito, que pode até conseguir que se esqueçam que antes, por muitas vezes, não tinha ninguém ali. Especialmente, quando era realmente preciso que tivesse.


Realmente fica muito difícil ser diferente disso, quando existem tantos espelhos ao redor. Mas a verdade sempre se revela. Guimarães Rosa, de novo, mais uma vez e para sempre disse, Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. E o amor é a verdade sem subterfúgios. Sem táticas. É desprovido de vaidade, a ponto de abrir mão de saciar a própria vontade em prol da felicidade de quem se ama. Ainda mais se já tiver falhado ou esgotado as possibilidades de cumprir essa missão.


Pelo menos, o que conforta nisso tudo, é que o mesmo ser capaz de deturpar sentimentos para conseguir aliviar a angústia de conviver com si mesmo, também é capaz de um dia entender e se encontrar com esse soberano sentimento, exclusivamente humano, que é o amor.


Há esperança e que assim seja.




sexta-feira, 23 de julho de 2010

Trezentos gramas e vinte centímetros de perfeição



Eu com a minha mania de querer ser menino, gostar das brincadeiras de menino, querer ficar perto de menino, acabei ganhando de presente uma menina.

Minha menina...

Ai que medo me aflige!

Não tenho muito o que dizer, assim bonito, assim poético, etc e tal. As vezes meus escritos nem são tão bons mesmo... Agora, mais do que nunca, nao estou nem aí para isso. Até porque acho que estou muito longe de conseguir chegar perto de qualquer palavra, frase ou oraçao que expresse uma pontinha do que foi e é saber que é ela...

Que angústia da repetição!

Que oportunidade de amar um amor tao infinito que possa curar a boneca-mãe dos seus medos bobos!

Minha filhinha, minha menina... seus chutinhos me ajudam a ter mais coragem para a missao de ser sua mãe e espero que sinta orgulho desse meu oficio, porque agora eu sei que tinha que ser você mesmo.

E explodo em lágrimas de alegria de saber que você esta vindo, minha pequeNina.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Das sutilezas



De um encontro, tudo. Um olhar busca o outro e, de repente, sem ter idéia de que a vida pode traçar planos mirabolantes, lá está a situação montada. Ambos vítimas de si mesmos, prestes a se enroscarem numa armadilha , preferem a desatenção à razão que já maltratou tanto. Tanto um quanto o outro.

Da brincadeira, como quando se faz alguma coisa que parece meio errada mas que, por não ser por mal, se autoperdoa, vem o resultado fatal. Ou melhor, vital. Vital e avassalador.

Em tudo que pode o resultado arruma um jeito de dar o recado de que tem certas coisas que não são brincadeira. Está na rua com as coisas que antes desapercebidas, parecem saltar aos olhos. Está na reação das pessoas. Está no corpo que muda, transmuta, expele, retém, produz, cresce. Está na alma que grita socorro baixinho para não fazer barulho para aquele serzinho que ali está. Porque afinal de contas, a ele é permitido brincar e já ensina, sem saber.

Daí para frente, só mistério apesar das opiniões aqui, relatos de como vai ser, ali. Na verdade, não adianta tanta especulação. Tudo pode ser ou não, mas o embrião, pelo seu próprio processo de amadurecimento, ensina a sua primeira lição: é preciso ter paciência. Esperar calmamente. E viver um dia de cada vez. . Nessas sutilezas da vida, ambos descobrem que o ontem, foi importante e belo, mas hoje o serzinho está mais completo. E o amanhã, sendo o hoje feliz, não tem outra escolha se não ser feliz também.



segunda-feira, 24 de maio de 2010

Vaso quebrado



Uma vez eu estava num bar, na companhia de dois músicos geniais, sessentões. Eles conversavam com um olhar de admiração mútua. De repente, constataram e concordaram entre si: “A vida é um sonho, quando a gente abre os olhos, ela já passou”. Nunca me esqueço dessa cena e dessas palavras. Naquele momento, era uma nostalgia que me parecia distante. Eu, diante deles, com mais metade da idade, não tinha me dado conta da verdade que ali se apresentou delicadamente.

Algum tempo depois, não muito, tantos foram os acontecimentos. Mudanças de casa, no trabalho. Novas amizades. Chegando filhos de amigos, velhos companheiros indo embora. Alguns casamentos, alguns rompimentos. Lágrimas de tristeza e de alegria. A vida seguindo o seu ciclo de altos e baixos. Esse ritmo sempre guiado pela minha essência; uma pessoa extremamente apaixonada. Intensa. Talvez por isso tantas lágrimas, tantas mudanças. Uma dose a mais de drama aqui, uma euforia exagerada ali.

A vida corre mesmo. A minha então… A essência fica, mas o vento que bate na cara, nas descidas bruscas dos baixos passa transformando. Algumas coisas mudam. Eu queria dizer que somos lapidados. Mas isso remete a um pedaço bruto que vai se tornando uma obra prima maravilhosa. Nem sempre é assim. Às vezes, coisas bonitas são perdidas. Como aquele vestido lindo que comprei e que ficou deslumbrante, mas que não foi usado no dia e, agora, já não serve mais. Pode até ser que sirva de novo um dia. Mas não vai mais causar aquela sensação de parecer ter sido feito para mim, para aquele dia. A gente vai mudando sim. E o que um dia não parecia ter grandes efeitos, de repente fica. O que machucava e sarava já não sara do mesmo jeito. Sabe quando a gente tira casquinha do machucado pra ficar livre da marca rápido, mas só o que faz é sangrar de novo e aumentar a marquinha? Feito um vaso quando quebra e a gente tenta colar. Pode até ficar inteiro. Mas sempre vai ser um vaso quebrado.

O tempo implacável, nessa roda viva e gigante, deixa de herança lembranças. Às boas, cabe o alento nas horas mais difíceis, quando as ruins insistem em criar uma carapaça em cima daquela chama do eu, essencialmente apaixonado e entregue. E quando o vestido não servir mais, ou quando aparecerem as linhas dos cacos colados? Cabe também às boas lembranças ajudar a mostrar que isso serve apenas para que haja menos tristeza em qualquer próximo acontecimento. Dos tantos que ainda serão. Até que, numa mesa de bar com um bom amigo como companhia, eu possa com muita saudade abrir os olhos, e constatar que a vida é mesmo um sonho.

Um belo de um sonho.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Todo-coração



Hoje me deu vontade de ver um dia lindo
De ver o dia
Tenho estado submersa num lugar onde a única luz está escondida dentro de mim
Um pequeno e crescente ser
Uma criaturinha com um coração que já bate acelerado
Pude ver e ouvir
Uma pulsação ansiosa para bombear sangue e vida
Ainda não sinto esse pequenino ser
Exceto por alguns caprichos do estômago
E dor na mais feminina parte do corpo que desponta para prover alimento
Mas o todo-coração serzinho, milimétrico meu fruto de puro amor, é grandioso
Pois é razão da minha vontade de emergir e respirar
Para todos os dias lindos que quero ver
Até a beleza dos dias só não ser maior do que a do rostinho do meu - já eterno - amor





segunda-feira, 26 de abril de 2010

Oração




Curvo diante a força
e dobro diante a luz

Oh, força poderosa
do universo, afastai de mim
os pés que perseguem
as palavras que ferem
os olhares que aniquilam
e os desejos que nos
maltratam de longe.

Oh, todo poderoso,
abre para seu humilde filho
a cena do bem e estrada do amor
com a vossa força e a vossa luz

Que assim seja.

Amém.


Oração da Umbanda, enviada pra mim pelo amigo querido Fel... Conforto e amor.



terça-feira, 20 de abril de 2010

Ironia do destino




Apenas um milímetro.
Se não tinha amor bastante, não importa.
Já não estou mais sozinha.




segunda-feira, 15 de março de 2010

Quem sabe?







"Quem poderá fazer

Aquele amor morrer

Se o amor é como um grão!

Morrenasce, trigo

Vivemorre, pão"

Gil


De tão leve e singelo, tudo vira grão.

É um gesto. Um pousar de mãos em qualquer parte do corpo que esteja perto. Ou os pés para garantir a presença que o sono as vezes leva para longe. É um olhar. Um para cada tipo de reconhecimento. O de saber ter agradado. O de saber ter chateado. O de saber gostar daquela música. O de não saber o que há. O de saber-se aprendiz do outro e de si mesmo. É um menu que surpreende cada vez menos. Cada dia menos necessário, para gostos cada vez mais conhecidos. É um carrinho de compras que muda de aparência. Sendo também integral, acumulando rosé's. É um pronome inventado. Para uso pessoal. Para não ser igual. Para ser único em vez de dois. Para ser singular. É uma paciência a mais. Para transformar a ausência de respostas em cumplicidade no silêncio. É não ter medo do silêncio. Então devagarinho e calmo, um sopro suave espalha e mistura tudo, semeando grão a grão. Talvez faça nascer, crescer, ou até mesmo desabrochar um grande amor.

Talvez...

imagem: autor desconhecido


quinta-feira, 4 de março de 2010

Pinot noir e lírios





Um psiquiatra australiano disse essa semana que sua pesquisa comprovou que pessoas felizes são egoístas. Que a tristeza faz com que as pessoas percebam mais o mundo exterior, logo as outras pessoas. Que os tristes ajudam mais. Fiquei pensando nisso, mas acho que eu não estava num bom dia. Porque achei que o ser humano é sempre tão egoísta, que se ele ajuda mais porque está triste é para se sentir um pouco melhor, com o fato de ver que sempre tem alguém pior. E resolvi que nada melhor do que a gente se ajudar primeiro. Dar uma mãozinha, sabe? O dia estava realmente difícil. São tantas mudanças e um território que não me pertence. E ainda tem os outros. Sim, existem outros e seus conflitos. Os altos. Os baixos. O desânimo deu uma invadida que a cama tem chamado cedo. Nove e meia, dez da noite. Pra acordar cansada. Já conheço esse filme. O elenco? Só uma pessoa atuando. Passeei pelas ruas, não vi ninguém. Como se tudo estivesse congelado, menos eu. Almocei sozinha. Comprei flores para mim. Passei num “café” charmoso. Adoro o aroma. Parei na loja de sempre, o sommelier reparou que eu estava diferente dos outros dias. Comentou. Não respondi. Cheguei em casa e coloquei as flores num vaso com água. Num gesto de carinho aos meus sentidos, dei aos meus ouvidos Jobim. Ao meu olfato o perfume dos lírios. A meu paladar a companhia do pinot noir. E ao meu coração a calma de saber tudo acaba no seu devido lugar. Desde que não falte água às flores.



Imagem: e urubu de Jobim...